O inapto para amar provavelmente
confundirá um amor que transborda com um sentimento de domínio. O amor, aquele que transborda, inunda ao
redor, por isso quem não sabe amar com tal intensidade, quem sabe apenas amar
como preenchimento ou esvaziamento, ou foge para não morrer afogado ou se
suicida em perplexa admiração e pavor. E o amante, o transbordante, como Zeus
fulminando Sêmele, não perde o ímpeto, porque sua natureza é amar
transbordando, inundando.
O frouxo amante, esse sim, corre
para o ideal de Liberdade, porque não tem forças que sabem inundar, não mistura
as águas em torrencial assimilação, composição, apropriação. O frouxo tem medo
da inundação, porque quer amar como preenchimento de si, e as águas do inundante
são demasiado intensas, quebram o vidro frágil do ideal de Liberdade. O frouxo
diz: “não me invada”, mas no fundo quer dizer: “não transbordo e quero
preencher-me, mas quero um conta-gotas”.
O inundante não ouve sua lamúria
covarde porque o som de seu transbordamento não lhe permite perder tempo. Ele
não apenas transborda, mas seu barulho assusta porque parece silêncio para quem
não ouve, por lhe faltar a torrente que excede. Porque amar é exceder, não é
ceder nem suprir a si mesmo. Ceder ou suprir-se é apenas conservar-se.
Quem busca amor para suprir-se é
fraco demais para transbordar. Portanto, ó desejantes do ideal de Liberdade,
não esperem que quem ama lhes dê paz, porque amar não é nada tranquilo nem
pacífico. Quem ama não confunde “transbordar-se” com “preencher-se”, não
confunde “liberar-se” com “isentar-se”, porque amor mesmo é cheio de
interesses. E interesse afeta, toca, invade, assimila, transborda sem pedir sua
licença.
O amor chega a ser até uma ofensa
para os frouxos e vazios, porque quando ele começa, a taça já não está mais
vazia. Turbilhões de inquietudes preparam o transbordamento com o mais precioso
vinho. Tudo já foi composto: o plantio, a regadura, a colheita, a recepção, o
esmagamento, a prensagem, a deburbagem, a fermentação alcoólica, a trasfegagem,
a filtragem, a estabilização e a fermentação em carvalho. Após todo esse apresto,
não espere que o vinho seja servido em conta-gotas para não ofender o ideal de
Liberdade. Ah! Não confunda esse amor-vinho com remédio para as frustrações do
vazio.
Amor não é busca tímida por
preenchimento. Amor é vinho que transborda e inunda.
(Luis Cesar Fernandes
de Oliveira, Ventre da Montanha, 11 de abril de 2014).