sexta-feira, 11 de abril de 2014

Amor transborda e inunda!

O inapto para amar provavelmente confundirá um amor que transborda com um sentimento de domínio.  O amor, aquele que transborda, inunda ao redor, por isso quem não sabe amar com tal intensidade, quem sabe apenas amar como preenchimento ou esvaziamento, ou foge para não morrer afogado ou se suicida em perplexa admiração e pavor. E o amante, o transbordante, como Zeus fulminando Sêmele, não perde o ímpeto, porque sua natureza é amar transbordando, inundando.
O frouxo amante, esse sim, corre para o ideal de Liberdade, porque não tem forças que sabem inundar, não mistura as águas em torrencial assimilação, composição, apropriação. O frouxo tem medo da inundação, porque quer amar como preenchimento de si, e as águas do inundante são demasiado intensas, quebram o vidro frágil do ideal de Liberdade. O frouxo diz: “não me invada”, mas no fundo quer dizer: “não transbordo e quero preencher-me, mas quero um conta-gotas”.
O inundante não ouve sua lamúria covarde porque o som de seu transbordamento não lhe permite perder tempo. Ele não apenas transborda, mas seu barulho assusta porque parece silêncio para quem não ouve, por lhe faltar a torrente que excede. Porque amar é exceder, não é ceder nem suprir a si mesmo. Ceder ou suprir-se é apenas conservar-se.
Quem busca amor para suprir-se é fraco demais para transbordar. Portanto, ó desejantes do ideal de Liberdade, não esperem que quem ama lhes dê paz, porque amar não é nada tranquilo nem pacífico. Quem ama não confunde “transbordar-se” com “preencher-se”, não confunde “liberar-se” com “isentar-se”, porque amor mesmo é cheio de interesses. E interesse afeta, toca, invade, assimila, transborda sem pedir sua licença.
O amor chega a ser até uma ofensa para os frouxos e vazios, porque quando ele começa, a taça já não está mais vazia. Turbilhões de inquietudes preparam o transbordamento com o mais precioso vinho. Tudo já foi composto: o plantio, a regadura, a colheita, a recepção, o esmagamento, a prensagem, a deburbagem, a fermentação alcoólica, a trasfegagem, a filtragem, a estabilização e a fermentação em carvalho. Após todo esse apresto, não espere que o vinho seja servido em conta-gotas para não ofender o ideal de Liberdade. Ah! Não confunda esse amor-vinho com remédio para as frustrações do vazio.
Amor não é busca tímida por preenchimento. Amor é vinho que transborda e inunda.

(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, Ventre da Montanha, 11 de abril de 2014).

domingo, 9 de março de 2014

Como se aprende a amar e a morrer I

Como a morte faz parte da vida, como uma inestimável espectadora que acaba entrando em cena quando menos se espera, ele morreu mais uma vez em vida. Um tal sentimento de perder alguém a quem muito ama entrou em cena, sem trocar de roupas, nem exigir holofotes. Esse é aquele sentimento que desaba o mundo, que ele achava estar tão repleto de beleza, mas que despencou sobre o seu corpo forte e conseguiu esmagá-lo.
Morreu, e não sabe dizer se volta. Não consegue ver nem vestígios seus, porque a avalanche, que lhe soterrou, transformou seu corpo em plenitude com a lama do acidente. Não sabe quem é, nem se está em algum lugar. Acabou de ser declarado como “desaparecido”. Oxalá ele possa ser encontrado em algum esgoto, pois ao menos podem lhe doar o título de “indigente” e um funeral simples possa ter ao menos o coveiro.
Deixou dois filhos chorando, sem ao menos o residual rosto inspirador que ainda lhes apresentava. Melhor assim, porque quando encontrarem a lápide que o coveiro plantou, não terão que fazer esforço nenhum para tentar reconhecer a lama no corpo que desabou.
Não deixou uma viúva, pois a privou de passar por esse desprivilégio de fazer luto por quem nem lhe disse o motivo do adeus.
Deixou uma mulher que tanto ama, mas dela não pode dizer nada. Não sabe nada, porque morreu antes de poder dizer-lhe o quanto a ama.
Morreu, mas pode-se dizer que foi melhor morrer amando do que sequer ter nascido para o amor. Morreu feliz, porque o amor tem em si um novo nascimento. Não há resignação, há um cadáver que ama. Então há contradição. Fazer o quê? Vida e morte se contradizem, mas alternam no amor.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, ventre da montanha, 09 de março de 2014).

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Tendência da solidão

Talvez um solitário não queira ser exibido ou arrogante, muito menos arrastar multidões e satisfazer seu domínio sobre os outros, mas possivelmente esteja realizando coisas grandiosas e impossíveis diante de tantos olhos. Possivelmente esteja querendo o domínio sobre si mesmo, mas a vida derrota até essa pretensão e lhe confere o que há de mais intenso: viver.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, Ventre da Montanha, 02 de janeiro de 2014).

sábado, 21 de dezembro de 2013

Guerra e carícia


Após uma Guerra comigo mesmo, saio ensanguentado e cansado, querendo colo, mas preparado para acariciar com autenticidade e autonomia. 
(Luis Cesar, Ventre da Montanha, 21 de dezembro de 2013).

Guerra e solidão

Após uma guerra comigo mesmo
saio cansado e ensanguentado
largado em confuso ermo
mas com ânsia de amor demorado

Assim, se o tempo me exige um termo
Logo arremesso um abraço apertado
Fatigando os desterros
Para enfim amar consolado

Mas a vida revira o momento
Lança olhos direto ao vento
Acaba com a calmaria
E me suga à rebeldia

Mudo as rimas e os versos
E termino querendo o caos das palavras
Como elas mesmas gostam
Como elas mesmas querem

As palavras, como eu mesmo, gostam da Guerra
Odeiam métricas e abusam do sangue
Mas sempre retornam ao belo sabor de uma letra idêntica
Só para dizer que contrariá-las também é amá-las

Sou como palavras
Sou múltiplo
Sou contraditório
Sou metade e vontade de tudo

Acabo com as rimas,
Mas não termino com as minas
Retomo as palavras
Mas as quero brabas

Por que sou de guerra
E não descanso em tempos de paz
Se almejo a gleba
Só para festejar “solitovoraz”


(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, Ventre da Montanha, 21 de dezembro de 2013).

domingo, 8 de dezembro de 2013

Em companhia da solidão

A solidão parece oca, sem sentido
Ou ainda figura uma dor que não querer acabar mais
Ela se mostra quando estou pensando em companhias
Será que vem ser minha singular companheira, quando me faltam os pares?

Solidão é adeus às companhias
É pegada forte, com punhos firmes e flexíveis
Parece não doer nos outros, apenas em mim
Mas se entrega fácil aos meus devaneios

Que companhia maravilhosa, essa tal solidão!
Não me furta as lembranças dos que amo
Nem me proibe de encontrá-los
Ela é uma companhia que só tem ciúmes do desolamento

Ah, esse sim... quando chega, surra a solidão
Dá-lhe uma face maculada pelas pancadas na face
Deixa-lhe os olhos tão argutos com uma cor de quem chora
Minha solidão sofre demais com o desolamento

Mas acha que ela sofre como coitada?
Não. Ela luta pela minha companhia
Como uma leoa ensanguentada, briga por seu filho dileto
Como amo essa minha matriarca

Esse ardiloso desolamento surge com a manhã
Para confundir minha dor e minha alegria
Emerge com a aurora, tranvestindo-se de amigo
Mas logo a minha solidão reage e lhe dá o rumo do abismo

Ah, como amo minha solidão, minha companheira!
Como ela me conforta, apesar de tão assolada pelo desolamento constante
Se ela for embora, de qual modo serei companheiro dos que amo?
Se ela não lutar por mim, como serei impetuoso e forte?


(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, Ventre da Montanha, 08 de dezembro de 2013).