domingo, 9 de março de 2014

Como se aprende a amar e a morrer I

Como a morte faz parte da vida, como uma inestimável espectadora que acaba entrando em cena quando menos se espera, ele morreu mais uma vez em vida. Um tal sentimento de perder alguém a quem muito ama entrou em cena, sem trocar de roupas, nem exigir holofotes. Esse é aquele sentimento que desaba o mundo, que ele achava estar tão repleto de beleza, mas que despencou sobre o seu corpo forte e conseguiu esmagá-lo.
Morreu, e não sabe dizer se volta. Não consegue ver nem vestígios seus, porque a avalanche, que lhe soterrou, transformou seu corpo em plenitude com a lama do acidente. Não sabe quem é, nem se está em algum lugar. Acabou de ser declarado como “desaparecido”. Oxalá ele possa ser encontrado em algum esgoto, pois ao menos podem lhe doar o título de “indigente” e um funeral simples possa ter ao menos o coveiro.
Deixou dois filhos chorando, sem ao menos o residual rosto inspirador que ainda lhes apresentava. Melhor assim, porque quando encontrarem a lápide que o coveiro plantou, não terão que fazer esforço nenhum para tentar reconhecer a lama no corpo que desabou.
Não deixou uma viúva, pois a privou de passar por esse desprivilégio de fazer luto por quem nem lhe disse o motivo do adeus.
Deixou uma mulher que tanto ama, mas dela não pode dizer nada. Não sabe nada, porque morreu antes de poder dizer-lhe o quanto a ama.
Morreu, mas pode-se dizer que foi melhor morrer amando do que sequer ter nascido para o amor. Morreu feliz, porque o amor tem em si um novo nascimento. Não há resignação, há um cadáver que ama. Então há contradição. Fazer o quê? Vida e morte se contradizem, mas alternam no amor.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, ventre da montanha, 09 de março de 2014).