Como a morte faz parte da vida, como uma inestimável
espectadora que acaba entrando em cena quando menos se espera, ele morreu mais
uma vez em vida. Um tal sentimento de perder alguém a quem muito ama entrou em
cena, sem trocar de roupas, nem exigir holofotes. Esse é aquele sentimento que
desaba o mundo, que ele achava estar tão repleto de beleza, mas que despencou
sobre o seu corpo forte e conseguiu esmagá-lo.
Morreu, e não sabe dizer se volta. Não consegue ver nem
vestígios seus, porque a avalanche, que lhe soterrou, transformou seu corpo em
plenitude com a lama do acidente. Não sabe quem é, nem se está em algum lugar.
Acabou de ser declarado como “desaparecido”. Oxalá ele possa ser encontrado em
algum esgoto, pois ao menos podem lhe doar o título de “indigente” e um funeral
simples possa ter ao menos o coveiro.
Deixou dois filhos chorando, sem ao menos o residual rosto
inspirador que ainda lhes apresentava. Melhor assim, porque quando encontrarem
a lápide que o coveiro plantou, não terão que fazer esforço nenhum para tentar
reconhecer a lama no corpo que desabou.
Não deixou uma viúva, pois a privou de passar por esse
desprivilégio de fazer luto por quem nem lhe disse o motivo do adeus.
Deixou uma mulher que tanto ama, mas dela não pode dizer
nada. Não sabe nada, porque morreu antes de poder dizer-lhe o quanto a ama.
Morreu, mas pode-se dizer que foi melhor morrer amando do
que sequer ter nascido para o amor. Morreu feliz, porque o amor tem em si um novo nascimento. Não há resignação, há um cadáver
que ama. Então há contradição. Fazer o quê? Vida e morte se contradizem, mas
alternam no amor.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, ventre da montanha, 09 de
março de 2014).