Como alguém consegue viver sem a torrente oscilante do oceano e do vento? Pior: como alguém consegue atrapalhar um pensamento e entender que está tudo bem? Mergulho em tristeza quando o cotidiano me afasta da oscilação entre o vento e o oceano. Minha alma é sangüínea. Estouro, esbravejo. Meu desejo é lançar as mãos longe daqueles que têm a alma quieta e fria. Não suporto a desvantagem de ser obrigado à meiguice de gente que só sabe navegar. Não me imagino sem oscilar entre o mergulho e vôo. Sou pássaro e peixe. Por essa dupla natureza, minha solidão é inevitável. Abandonar é meu ofício, assim como retornar. Não sou responsável pela natureza mesquinha e limitada dos alheios. Sou mais de um, por isso me estranham sempre. E assim, vivo infinito.
(Luis Cesar, Montanha, 29 de dezembro de 2008).
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Quem sou eu?
Por vezes, o vento. De outras, o veleiro. Ainda, a vela. Sou o oceano e a praia, até mesmo terra firme. O mais importante é que, possível e necessário, sou.
(Luis Cesar, Montanha, 29 de dezembro de 2008).
(Luis Cesar, Montanha, 29 de dezembro de 2008).
sábado, 20 de dezembro de 2008
Intuição matutina
Minha alma é sanguínea, logo existo.
(Luis Cesar, Montanha, madrugada do sábado, 20 de dezembro de 2008).
(Luis Cesar, Montanha, madrugada do sábado, 20 de dezembro de 2008).
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Sofrimento e texto
Descobri um parentesco entre o sofrimento e o texto. Entendia que a confecção de um escrito só teria validade caso fosse venal. Outrora lia coisa parecida em Nietzsche, mas não percebia que a circularidade do texto é familiar inseparável do sofrimento.
Hoje entendo que sofrimento, texto e solidão, quando dissociados, desgraçam qualquer homem.
Irmãos, não concebam esta elevação ao cubo uma mera saliência, mas uma afirmação da terceira hipótese: a solidão sangüínea.
(Montanha, 20 de novembro de 2008).
Hoje entendo que sofrimento, texto e solidão, quando dissociados, desgraçam qualquer homem.
Irmãos, não concebam esta elevação ao cubo uma mera saliência, mas uma afirmação da terceira hipótese: a solidão sangüínea.
(Montanha, 20 de novembro de 2008).
Um ocaso
Estou triste,
mas uma alegria imensa me invadiu.
Parece que o que escrevo sobre a solidão se concretizou hoje, quando meu escrito se encarnou.
Meu declínio é um aprendizado.
Meu declínio é uma abreviatura da sabedoria da natureza, dos contrários de Heráclito.
Minha argüição me elevou à potência de três, mas me arremessou a mais crua solidão.
Sou um homem que avança para seu próprio rumo. Sou uma torrente, um desvairamento, um desafio a ser superado.
(Montanha, 20 de novembro de 2008).
mas uma alegria imensa me invadiu.
Parece que o que escrevo sobre a solidão se concretizou hoje, quando meu escrito se encarnou.
Meu declínio é um aprendizado.
Meu declínio é uma abreviatura da sabedoria da natureza, dos contrários de Heráclito.
Minha argüição me elevou à potência de três, mas me arremessou a mais crua solidão.
Sou um homem que avança para seu próprio rumo. Sou uma torrente, um desvairamento, um desafio a ser superado.
(Montanha, 20 de novembro de 2008).
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Seriedade...
Política é coisa séria. Quem saberia governar melhor do que um cético? Quem são os pobres diabos que governam com reatividade? Saberiam ministrar suas próprias vidas? Afinal, o que há de mais importante do que ministrar a verdade? São os cientistas os ministros da verdade. Não sabia que governantes também poderiam exercer tal ministério com tanta simpatia.
Políticos e seus agregados: como são cheios de si e de malícia. “Si” e malícia são gêmeas. Não é de se esconder que gosto dos políticos, pois sei que jamais serão algo além disso. Suas asas são demasiado ágeis para voar tão alto. Preferem os vôos rasteiros. Afinal, as presas não são difíceis de capturar, menos ainda de devorar. Oferecem até suas crias aos dentes curvos e embotados dos predadores.
Os políticos são tão espertos que não escondem suas capacidades para vôos altos. Até se aproximam dos cumes, mas seus pulmões suportam apenas estágios nas alturas. Sua habitação é mesmo o pântano, pois lá está a riqueza do instinto de sobrevivência.
A consciência é a mãe da política? Seria mesmo a mãe? Ou seria sua amante mais fácil? A política só tem a face alva por causa da consciência, por isso os restos mortais dos políticos somente servem para cultos da consciência. Alguém saberia dizer a diferença entre RELIGIÃO, POLÍTICA e consCIÊNCIA?
Diria que nada é mais repulsivo do que não gostar de políticos e de política. Uma é veneno do outro. Melhor gostar de uma e de outro do que experimentar sê-los.
(Baixada, 17 de novembro de 2008).
Políticos e seus agregados: como são cheios de si e de malícia. “Si” e malícia são gêmeas. Não é de se esconder que gosto dos políticos, pois sei que jamais serão algo além disso. Suas asas são demasiado ágeis para voar tão alto. Preferem os vôos rasteiros. Afinal, as presas não são difíceis de capturar, menos ainda de devorar. Oferecem até suas crias aos dentes curvos e embotados dos predadores.
Os políticos são tão espertos que não escondem suas capacidades para vôos altos. Até se aproximam dos cumes, mas seus pulmões suportam apenas estágios nas alturas. Sua habitação é mesmo o pântano, pois lá está a riqueza do instinto de sobrevivência.
A consciência é a mãe da política? Seria mesmo a mãe? Ou seria sua amante mais fácil? A política só tem a face alva por causa da consciência, por isso os restos mortais dos políticos somente servem para cultos da consciência. Alguém saberia dizer a diferença entre RELIGIÃO, POLÍTICA e consCIÊNCIA?
Diria que nada é mais repulsivo do que não gostar de políticos e de política. Uma é veneno do outro. Melhor gostar de uma e de outro do que experimentar sê-los.
(Baixada, 17 de novembro de 2008).
sábado, 15 de novembro de 2008
O oceano e o amor
Observo um certo parentesco entre o amor e o oceano. Qualquer pedaço do continente tem um dono, assim como alguns limites marinhos, mas o oceano não tem dono. Acho que o amor é irmão gêmeo dele.
(Montanha, 15 de novembro de 2008).
(Montanha, 15 de novembro de 2008).
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Dor e cicatriz: dionisismo
Hoje me veio uma cisão para enxergar a dor, torrencial como a potente necessidade do acaso, do inesperado. Uma dor que não cessará até que pule em meu colo um duende, com máscara de tormento e sinais de morte, para que depois de lutar eu possa descansar. Que sono poderei ter com a expectativa de pesadelos? Uma dor tão latente, tão presente, de um passado que retorna voluptuosamente e me faz sentir atormentado. Um doende me trouxe, como em passe de mágica, o odor do sangue que outrora senti.
Mas não sinto apenas o odor do sangue, tenho em mim também as máculas de seu sabor, de sua textura e de sua cor forte. Ainda bem que foi meu peito que acolheu aquele ferido em lágrimas e desolamento. O covarde doende fez o menino escorregar e me trazer as marcas do meu passado, apesar de ser em notória novidade. Mas um espanto: uma solidão imensa invadiu aquele menino, ao ponto de perceber seu rosto desolado ser o meu em sua acolhida. Nos confundimos, nos fundimos em dor.
A maior astúcia de uma parturiente se manifestou quando minha força reconheceu na dor a capacidade para a imaginação. Parecia um grego vestido de Apolo. Vesti o menino despido com as roupas da bela aparência; provoquei sua mais bela força: a de fantasiar.
Contudo, minha imaginação não era tão à toa ao ponto de fantasiar sem retornar à dor com a imensa alegria de fazer um curativo: assumir a dor e torná-la uma catapulta para uma pele cicatrizada e forte. Ora! Ora! Uma cicatriz não perde a sensibilidade, é apenas uma mudança do modo de sentir a dor que a pele assume. É um dionisismo mesmo.
(Montanha, 05/11/2008).
Mas não sinto apenas o odor do sangue, tenho em mim também as máculas de seu sabor, de sua textura e de sua cor forte. Ainda bem que foi meu peito que acolheu aquele ferido em lágrimas e desolamento. O covarde doende fez o menino escorregar e me trazer as marcas do meu passado, apesar de ser em notória novidade. Mas um espanto: uma solidão imensa invadiu aquele menino, ao ponto de perceber seu rosto desolado ser o meu em sua acolhida. Nos confundimos, nos fundimos em dor.
A maior astúcia de uma parturiente se manifestou quando minha força reconheceu na dor a capacidade para a imaginação. Parecia um grego vestido de Apolo. Vesti o menino despido com as roupas da bela aparência; provoquei sua mais bela força: a de fantasiar.
Contudo, minha imaginação não era tão à toa ao ponto de fantasiar sem retornar à dor com a imensa alegria de fazer um curativo: assumir a dor e torná-la uma catapulta para uma pele cicatrizada e forte. Ora! Ora! Uma cicatriz não perde a sensibilidade, é apenas uma mudança do modo de sentir a dor que a pele assume. É um dionisismo mesmo.
(Montanha, 05/11/2008).
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Das alturas
Para quem é alto, abandonar a montanha não é um desalento, mas uma necessidade. Assim como retornar é lançamento do eterno devir.
Deixar a montanha, assim como deixei o vale, é meu destino. Todos os dias, meu caminho às terras mais baixas não me solapa em dor sem cura, em desequilíbrio. São os movimentos de subir e descer que produzem ventos para o declínio de amanhã, e ainda mais: me fazem morrer e ressuscitar todos os dias.
Dia por dia minha dor e minha alegria gritam forte, para o alto e para baixo. Elas não sabem o que é som em reta, pois o eco é retorno em sua possibilidade necessária.
Se eu não fosse assim, meus pulmões suplicariam por mudar de lugar de vez em quando.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, 22 de setembro de 2008, 06:49)
Deixar a montanha, assim como deixei o vale, é meu destino. Todos os dias, meu caminho às terras mais baixas não me solapa em dor sem cura, em desequilíbrio. São os movimentos de subir e descer que produzem ventos para o declínio de amanhã, e ainda mais: me fazem morrer e ressuscitar todos os dias.
Dia por dia minha dor e minha alegria gritam forte, para o alto e para baixo. Elas não sabem o que é som em reta, pois o eco é retorno em sua possibilidade necessária.
Se eu não fosse assim, meus pulmões suplicariam por mudar de lugar de vez em quando.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, 22 de setembro de 2008, 06:49)
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Palavras
Gosto das palavras. São como crianças. Exigem atenção e versatilidade. Abominam ser enganadas, mas adoram fantasias. Exprimem o presente sem máculas. Não descartam o passado, entretanto jamais se enganam com prosperidades. Querem imanência, mesmo sendo linguagem. Querem sabor, porque passam pela boca e não deixam marcas de nutrientes. Como elas gostariam de alimentar corpos ao invés de habitar somente almas. Palavras... Quando o pensamento se demonstra, são elas os convites do corpo em arremesso à vida. Um movimento violento contra um vento da sujeição racional. As palavras podem ser parentes das intuições, apesar de terem-nas arrancado de sua mãe e a terem dado em adoção para a pretenciosa e arrogante razão.
Gosto das palavras porque são multiplicidades. Escorregam. Dançam. Não conhecem o repouso. Quando as tornam estáveis, sambam em rebeldia. Quando as escondem, seja por ignorância ou por autoritarismo, acabam sendo cantadas. Sempre existirão compositores, poetas e músicos para brincar com as palavras. Ao contrário dos adultos, as palavras exigem a fantasia, salientam amigos imaginários. Quem não se lembra que as palavras estavam sempre em alto tom na brincadeira de ser deus, quando havia criação e animação da criatura.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, Montanha, dia de chuva)
Gosto das palavras porque são multiplicidades. Escorregam. Dançam. Não conhecem o repouso. Quando as tornam estáveis, sambam em rebeldia. Quando as escondem, seja por ignorância ou por autoritarismo, acabam sendo cantadas. Sempre existirão compositores, poetas e músicos para brincar com as palavras. Ao contrário dos adultos, as palavras exigem a fantasia, salientam amigos imaginários. Quem não se lembra que as palavras estavam sempre em alto tom na brincadeira de ser deus, quando havia criação e animação da criatura.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, Montanha, dia de chuva)
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