Para quem é alto, abandonar a montanha não é um desalento, mas uma necessidade. Assim como retornar é lançamento do eterno devir.
Deixar a montanha, assim como deixei o vale, é meu destino. Todos os dias, meu caminho às terras mais baixas não me solapa em dor sem cura, em desequilíbrio. São os movimentos de subir e descer que produzem ventos para o declínio de amanhã, e ainda mais: me fazem morrer e ressuscitar todos os dias.
Dia por dia minha dor e minha alegria gritam forte, para o alto e para baixo. Elas não sabem o que é som em reta, pois o eco é retorno em sua possibilidade necessária.
Se eu não fosse assim, meus pulmões suplicariam por mudar de lugar de vez em quando.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, 22 de setembro de 2008, 06:49)
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Palavras
Gosto das palavras. São como crianças. Exigem atenção e versatilidade. Abominam ser enganadas, mas adoram fantasias. Exprimem o presente sem máculas. Não descartam o passado, entretanto jamais se enganam com prosperidades. Querem imanência, mesmo sendo linguagem. Querem sabor, porque passam pela boca e não deixam marcas de nutrientes. Como elas gostariam de alimentar corpos ao invés de habitar somente almas. Palavras... Quando o pensamento se demonstra, são elas os convites do corpo em arremesso à vida. Um movimento violento contra um vento da sujeição racional. As palavras podem ser parentes das intuições, apesar de terem-nas arrancado de sua mãe e a terem dado em adoção para a pretenciosa e arrogante razão.
Gosto das palavras porque são multiplicidades. Escorregam. Dançam. Não conhecem o repouso. Quando as tornam estáveis, sambam em rebeldia. Quando as escondem, seja por ignorância ou por autoritarismo, acabam sendo cantadas. Sempre existirão compositores, poetas e músicos para brincar com as palavras. Ao contrário dos adultos, as palavras exigem a fantasia, salientam amigos imaginários. Quem não se lembra que as palavras estavam sempre em alto tom na brincadeira de ser deus, quando havia criação e animação da criatura.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, Montanha, dia de chuva)
Gosto das palavras porque são multiplicidades. Escorregam. Dançam. Não conhecem o repouso. Quando as tornam estáveis, sambam em rebeldia. Quando as escondem, seja por ignorância ou por autoritarismo, acabam sendo cantadas. Sempre existirão compositores, poetas e músicos para brincar com as palavras. Ao contrário dos adultos, as palavras exigem a fantasia, salientam amigos imaginários. Quem não se lembra que as palavras estavam sempre em alto tom na brincadeira de ser deus, quando havia criação e animação da criatura.
(Luis Cesar Fernandes de Oliveira, Montanha, dia de chuva)
domingo, 16 de dezembro de 2007
A glória da solidão
A mais dura solidão provém da ausência de culpa. Nada mais duro do que ser acometido pelo olhar acusativo da injustiça. Nada menos inoportuno do que saber-se aquém da miséria humana. Somente por ela, a solidão dura, satisfaço meu auditivo silêncio de felicidade.
Meus pés já caminham por conta própria. Minha boca saltita entre a dor e a alegria. Meu canto é de glória. Minha satisfação é de despertar altivos.
Meu peito esguicha a miséria humana em deleite. Me invade a vontade, que já era presente. Meu sono atordoado não me veio mais. Somente a ele digo uma expatriação.
Ao que acalma a alma dedico as palavras finais, e ao que sacia a sede de não encontrar mais os homens. Faço um brinde ao meu ocaso de glória, sem vertigem.
(Luís César Fernandes de Oliveira, Montanha, 16/dezembro/2007)
Meus pés já caminham por conta própria. Minha boca saltita entre a dor e a alegria. Meu canto é de glória. Minha satisfação é de despertar altivos.
Meu peito esguicha a miséria humana em deleite. Me invade a vontade, que já era presente. Meu sono atordoado não me veio mais. Somente a ele digo uma expatriação.
Ao que acalma a alma dedico as palavras finais, e ao que sacia a sede de não encontrar mais os homens. Faço um brinde ao meu ocaso de glória, sem vertigem.
(Luís César Fernandes de Oliveira, Montanha, 16/dezembro/2007)
O engasgo
Das costas do mundo, em crostas imundas, alfandegaram a arte e embalsamaram o artista.
Do centro da terra, do âmago do ser, retiraram o mistério e doaram razão ao prazer.
Seus olhos calcularam o mundo; seus ouvidos ritmaram, sem sopro ou corda, teclado ou couro, magia das coisas. Que revolta! Que engasgo! Jamais suportariam a totalidade e a multiplicidade do uno.
(Luís César, Montanha, 05/12/07)
Do centro da terra, do âmago do ser, retiraram o mistério e doaram razão ao prazer.
Seus olhos calcularam o mundo; seus ouvidos ritmaram, sem sopro ou corda, teclado ou couro, magia das coisas. Que revolta! Que engasgo! Jamais suportariam a totalidade e a multiplicidade do uno.
(Luís César, Montanha, 05/12/07)
Do bêbedo ao mendigo
Minha sobriedade corre um risco tremendo. Não há motivos plausíveis para cativá-la. Deixo que a vontade seja seu algoz. Proclamo uma noite de devaneio e glória.
Na profundidade da escuridão, um clarão salta aos olhos. Ele quer ser guia, mas ainda é superficial em demais. A noite lhe revela sua fraqueza, por ser tão só na imensidão. Entretanto, a profundidade lhe doa oportunidade por ter sede da diferença, do múltiplo...
Vede bem: sede é necessidade.
Devaneio e glória em contínuo estancamento, fluxo do possível e do necessário, uma pedra lançada ao mar, como o eterno contemplado no belo.
A foice cortou o cabo do martelo, que caiu sobre a lâmina e a cegou. O igualitário se interpôs em paredes de túmulo, que por sua vez se tornou lugar comum.
Será que um deus é sempre desfavorável ao povo? Depende... se o canto popular matar o cordeiro, açoitar o velho rei, e exaltar o prazer do corpo...
Será que retornar ao uno é tão medonho que não se possa negar o “amém” e dizer “avança”?
Avance necessariamente e por escolha... vá ao encontro do ser
Abandona o teu Deus, ó mendigo! Não vê que se tornou demasiado pobre. A predileção pela morte lhe seria o melhor remédio. Portanto, não desperdice o pouco que ainda lhe resta de si em vãs imolações alheias... Morra!
Um mendigo jamais conseguirá abandonar a sobriedade?
(Na montanha, 04/12/07)
(Luís César Fernandes de Oliveira)
Na profundidade da escuridão, um clarão salta aos olhos. Ele quer ser guia, mas ainda é superficial em demais. A noite lhe revela sua fraqueza, por ser tão só na imensidão. Entretanto, a profundidade lhe doa oportunidade por ter sede da diferença, do múltiplo...
Vede bem: sede é necessidade.
Devaneio e glória em contínuo estancamento, fluxo do possível e do necessário, uma pedra lançada ao mar, como o eterno contemplado no belo.
A foice cortou o cabo do martelo, que caiu sobre a lâmina e a cegou. O igualitário se interpôs em paredes de túmulo, que por sua vez se tornou lugar comum.
Será que um deus é sempre desfavorável ao povo? Depende... se o canto popular matar o cordeiro, açoitar o velho rei, e exaltar o prazer do corpo...
Será que retornar ao uno é tão medonho que não se possa negar o “amém” e dizer “avança”?
Avance necessariamente e por escolha... vá ao encontro do ser
Abandona o teu Deus, ó mendigo! Não vê que se tornou demasiado pobre. A predileção pela morte lhe seria o melhor remédio. Portanto, não desperdice o pouco que ainda lhe resta de si em vãs imolações alheias... Morra!
Um mendigo jamais conseguirá abandonar a sobriedade?
(Na montanha, 04/12/07)
(Luís César Fernandes de Oliveira)
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
O canto da felicidade 1
Não sei quanto o tempo faz
Mas lembro do que produz
Talvez seja mero desmazelo, não sei de quem
Contudo, não gostaria de vê-lo longamente
Talvez a dúvida seja uma esquisitice
Mas não macula tanto quanto o tempo
Não digo de rugas
Não saliento verdades degenerativas
Visualizo a imensidão
Imploro pelo hoje
Ofusco o presente funesto
Saliento a invalidez da negação do primeiro parágrafo
Quero tocar a eternidade do tempo, mesmo na dúvida, com voz firme
Num canto forte e agudo
Junto ao coro, numa noite fértil
Numa terra que sente dor e alegria
O que me dá prazer é abandonar o contínuo
Lançar mão ao arado de quatro estrofes
Sem mesmo ter que casá-las
Sair e me juntar ao canto popular, fértil, em carnaval
Mas lembro do que produz
Talvez seja mero desmazelo, não sei de quem
Contudo, não gostaria de vê-lo longamente
Talvez a dúvida seja uma esquisitice
Mas não macula tanto quanto o tempo
Não digo de rugas
Não saliento verdades degenerativas
Visualizo a imensidão
Imploro pelo hoje
Ofusco o presente funesto
Saliento a invalidez da negação do primeiro parágrafo
Quero tocar a eternidade do tempo, mesmo na dúvida, com voz firme
Num canto forte e agudo
Junto ao coro, numa noite fértil
Numa terra que sente dor e alegria
O que me dá prazer é abandonar o contínuo
Lançar mão ao arado de quatro estrofes
Sem mesmo ter que casá-las
Sair e me juntar ao canto popular, fértil, em carnaval
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
O canto da liberdade 1
Sair ao encanto do dia,
sombrear, por vezes, sem perceber,
após uma lágrima de noite.
Que solidão! Nunca vi mais dura.
Observar o carinho pequeno, com um ano e meio,
agarrado ao braço como se fosse aste de aço.
Seu sono inculca o solitário endurecido,
mas não lhe deixa de supor sorriso.
A mais dura solidão,
em tato endurecido.
A menos bruta vastidão,
em pele ingênua, livre.
Suave perigo que emana do bruto;
Forte odor que exala do livre;
Busca que exala em força;
Livre que suaviza o perigo.
Pronto, o dia veio
E não vi um porquê.
Não existe,
por desrazão do livre, na solidão.
sombrear, por vezes, sem perceber,
após uma lágrima de noite.
Que solidão! Nunca vi mais dura.
Observar o carinho pequeno, com um ano e meio,
agarrado ao braço como se fosse aste de aço.
Seu sono inculca o solitário endurecido,
mas não lhe deixa de supor sorriso.
A mais dura solidão,
em tato endurecido.
A menos bruta vastidão,
em pele ingênua, livre.
Suave perigo que emana do bruto;
Forte odor que exala do livre;
Busca que exala em força;
Livre que suaviza o perigo.
Pronto, o dia veio
E não vi um porquê.
Não existe,
por desrazão do livre, na solidão.
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